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Os escritos de Vassula Ryden

por Pe. Michael O´Carroll, CSSp

A literatura sobre Jesus é imensa e de uma riqueza surpreendente. Aquilo que sobre Ele foi escrito, no decurso dos últimos cinquenta anos, supera, em muito, aquilo que havia sido publicado nos séculos anteriores; e não deixou esta realidade de encontrar profundo eco nas igrejas e nos lugares de encontro. Também isto é um testemunho da misteriosa grandeza de Jesus. No contexto da história universal, em tudo aquilo que a experiência dos homens nos revela, o Seu lugar é indiscutívelmente único.

Nos dias de hoje, o número das Igrejas, das comunidades eclesiais, das seitas e dos grupos religiosos que a Ele se referem ultrapassa, em muito, os 20.000, quer tomem apenas o Seu Nome, quer O considerem mesmo como seu fundador. Sob um ponto de vista demográfico, Jesus, que era hebreu, semita e asiático, contava, entre os Seus fiéis, apenas com uma pequena minoria de hebreus, semitas e asiáticos.

O enorme esforço intelectual e todos os trabalhos dos sábios terão conseguido realizar a conversão tão esperada, não apenas entre aqueles que O ignoram ou não aceitam como seu Salvador, como também entre aqueles que se afirmam crentes, mas não seguem a Sua doutrina e não obedecem aos Seus mandamentos?

Tem-se feito muita cristologia, tem-se investigado, tem-se argumentado muito sobre o assunto, sobre o tema do "Jesus da história" e do "Cristo da fé"; têm-se examinado muito os textos bíblicos, tem-se recorrido a tudo quanto poderia iluminar-nos, na Sua Vida e Obra: disciplinas marginais, arqueologia, as descobertas em Qumran, os grandes textos judeo-cristãos; e, recentemente, multiplicam-se os livros sobre "Jesus o Hebreu": há muito tempo nos deveremos ter dado conta disto.

Ora, tendo-me visto envolvido, quase submerso, nesta verdadeira floresta literária, estou entretanto convencido que alguma coisa falta ainda: o contributo da mística. Deixar passar em silêncio o testemunho dos grandes místicos, seria como que fechar os olhos a uma excepcional luz de Jesus Cristo. Seria como que esconder o Seu Mistério aos membros das grandes religiões não cristãs, religiões que nós mesmos somos convidados a estudar com simpatia e compreensão. Eles próprios apreciam a mística no seu justo valor e não querem que seja falseada.

No decurso da história, os grandes místicos tiveram, por vezes, uma missão capital na vida pública da Igreja. Sob o ponto de vista psicológico, Jesus Cristo, pela acção do Seu Espírito, revela-nos, através dos místicos, as profundidades da personalidade humana, um campo rico e misterioso em que só Ele pode entrar e que, com a Sua própria acção, Ele mesmo transforma. A teologia esclarece e confirma aquilo que a história e a psicologia reconhecem.

É nesta perspectiva estritamente psicológica que apresento este volume dos escritos de Vassula Ryden. A meu ver, trata-se de um documento do mais alto valor que nos oferece uma experiência pessoal, autenticamente mística. Qualquer que seja a linguagem utilizada, o seu valor é indiscutível. Outros místicos, como Maria Conceição de Armida ou Adriana von Speyr, receberam ditados do Senhor ou deram-nos sob a Sua inspiração. Mas aquilo que torna absolutamente singular o caso de Vassula é o facto de mesmo a sua própria caligrafia ser directamente controlada pelo Senhor. Temos, assim, uma experiência mística, com a garantia de que Cristo está nela implicado ou comprometido, até à física acção de pôr as palavras por escrito. Os leitores que se interroguem sobre a possibilidade de isto mesmo se poder verificar, fiquem sabendo que um grafólogo competente, de máxima reputação, perito no Tribunal de Primeira Instância de Paris, J. A. Munier, que ignorava inteiramente a identidade da escritora, submeteu a caligrafia a um exame técnico e nela encontrou qualidades estupendas. O leitor que viu a natural caligrafia de Vassula, através desta mesma análise, ficará devidamente informado (1).

Aqueles que reconhecem a mensagem de Jesus, através dos escritos de Vassula, verão nela matéria de reflexão, que poderá talvez perturbá-los, mas também encorajá-los. O "leit-motiv", a verdadeira constante ou mais belo tema de todas estas comunicações é o amor de Jesus, expresso no contexto bem conhecido, na história da mística, pelo matri-mónio espiritual, mas manifestado com o esplendor da efusão do Sagrado Coração de Jesus.

Deparamos, nestes escritos, com uma revelação portadora de promessas, uma vez que a mesnsageira do Senhor faz parte da Igreja Ortodoxa e, na tradição ortodoxa, não se fala do Sagrado Coração. Sob o ponto de vista histórico, este facto é único, e é de uma grande consolação para os católicos. É a renovação tão esperada de um ideal, de uma intuição central e profunda da pessoa de Jesus, Homem Deus que, no decorrer dos séculos, sobretudo através de Santa Margarida Maria, deu à Igreja numerosos santos e apóstolos. Após o Concílio Vaticano II, aquela que era uma visão total de Cristo, iluminada e libertadora, tornou-se, para alguns, uma pequena devoção, a esquecer o mais depressa possível. Entretanto, aqueles que esperavam melhores dias não pensavam realmente que a aurora viria a ser avistada no Oriente.

O acontecimento é, pois, de um bom augúrio para a união  cristã, que ocupa um lugar tão importante na vocação de Vassula e na sua esperança. E, realmente, qual o lugar de encontro de todos os cristãos melhor que o Coração de Jesus? Ele tem dito a Vassula que a união  tão desejada se fará por milagre. Jesus será reconhecido como seu mestre e artesão.

Não é a primeira vez que somos devedores, aos ortodoxos, de um tal benefício. Durante o Concílio, os observadores ortodoxos e os seus teólogos, particularmente o teógolo grego Niko Nissiotis, pediam com insistência que se perfilhasse uma doutrina satisfatória sobre o Espírito Santo, nos documentos conciliares; de outro modo, o seu impacto no mundo ortodoxo, seria mínimo ou mesmo nulo. Fizeram-se muitos esforços neste sentido, no Concílio. Importa notar como Jesus fala a Vassula, do Espírito Santo.

Jesus fala também muito a Vassula do amor, mas não descuida os mandamentos e é do interesse do próprio leitor comparar a clareza daquilo que Ele diz, com certos comentários vagos e ambíguos, tantas vezes feitos sobre as verdades da nossa fé. Todos quantos se têm dedicado ao ecumenismo deverão ler atentamente avisos contra os perigos de certos compromissos da doutrina; os pregadores não deverão dar a precedência às questões sociais, perante o dever de adoração; não devem separar-se de Deus, fonte de vida, nem minimizar a divindade de Jesus Cristo ou os mistérios da Sua vida, morte e ressurreição.

Em certos cadernos, há severos avisos sobre o estado actual da Igreja. E como será, então, necessário reagir justamente às lições tiradas do capítulo XIII do Apocalipse? Com muita humildade, creio eu, atentos ao realismos do texto e no desejo de alcançar a recompensa da fidelidade. Com razão para com elas nos sentirmos muito reconfortados, devemos acolher com reconhecimento aquilo que nos é dito sobre as aparições e visões que o Espírito Santo continua tão prodigamente a oferecer a estes nossos dias.

O Espírito, estamos certos disso, é precisamente o Espírito de Jesus. Jesus ama a Sua Igreja, dá-Se conta do estado em que ela se encontra e decidiu-Se a renová-la.

Penso, agora, num livro semelhante aos de Vassula: "Confidências de Jesus aos Seus padres e aos Seus fiéis", cujo autor é um sacerdote emérito da diocese de Carpi, Mons. Ottavio Michelini. A este autor, o Senhor deu uma ideia muito clara do estado actual da Igreja, dos males que a devastam; mas deu também a esperança de que, pela intercessão de Maria e para Seu triunfo sobre o poder do mal, o Reino de Jesus Cristo será restabelecido.

Fiel à antiquíssima tradição da Igreja ortodoxa, Vassula crê firmemente no poder da Santíssima Virgem, a Theotokos. Muita gente, falando de Maria como obstáculo à unidade cristã, esqueceu este rico património. Nisto, Vassula vem ao encontro de uma poderosa corrente de piedade católica, centrada no Coração Imaculado de Maria.

O Coração de Maria, unido ao Coração de Jesus, é um tema que inspira e encoraja. Deve-se a João Paulo II a bela fórmula "A aliança dos dois Corações". Uma tal aliança foi adoptada como título do Simpósio internacional que se realizou em Fátima, de 14 a 19 de setembro de 1986, sob o patrocínio do Cardeal Sin. Com uma propositada carta, o Papa João Paulo II aprovou o Simpósio e recebeu depois, em audiência particular, os participantes, que se dirigiram a Roma, para lhe apresentar as actas do congresso. Peritos em teologia tinham demonstrado, com profundas investigações, que a ideia da "aliança dos dois Corações" se encontrava, em diversos momentos, na história da Igreja. Haviam sublinhado os traços dominantes de uma tal história: as grandes santas de Helfa, na Idade Média; os santos e doutores do século XVII , em França, e particularmente São João Eudes; o despertar do século XIX, o ensinamento formal dos Papas, a partir de Pio XII; a promessa recebida em Fátima, segundo a qual Jesus quer, com o triunfo do Imaculado Coração de Maria, na Rússia, glorificar o Coração de Maria ao lado do Seu Sagrado Coração. E sem falar das revelações privadas mais recentes.

Importa, pois, alegrarmo-nos com o facto de Vassula Ryden, guiada, palavra a palavra por Jesus, ter entrado, com intuição bem clara e corajosa sinceridade, no rol de teólogos e místicos votados à regeneração e divinização do género humano, pela intercessão dos dois Corações.

Estou convencido de que se poderá esperar um enriquecimento da teologia do coração, no seio da Igreja, por este contacto íntimo e profundo das duas tradições: a ocidental e a oriental. Conhece-se o lugar dominante da ideia da divinização do homem feito à imagem de Deus, nos grandes Padres gregos, sobretudo nos da escola de Alexandria. E isto mesmo nos faz um apelo ao renovamento teológico que dará lugar, aliás como condição preliminar e indispensável para a unidade tão desejada, a uma reflexão sobre o Coração de Jesus como meio e modelo da divinização do ser humano. É uma imensa perspectiva que se abre à teologia cristã. O Papa João Paulo II mostrou-nos como se poderá integrar o próprio pensamento sobre a pessoa humana, traçada pelos  trabalhos da fenomenologia à teologia do coração. No Simpósio, em Fátima, os teólogos estiveram de acordo em que a síntese frutuosa se fará com o auxílio do Espírito Santo, continuando ainda as investigações e necessárias reflexões.

É uma honra para mim recordar e afirmar assim o ideal que Vassula nos apresenta com eloquência tão sincera e, às vezes, mesmo pungente: o ideal que não é outra coisa senão o próprio Jesus, "Mediador e plenitude de toda a revelação", como O chama o Vaticano II, o centro da vida e de toda a criação, que existia, no princípio, com Deus, alfa e omega. N'Ele, "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" (Col 2, 3); Ele é "gerado, antes de toda a criatura... e todas as coisas subsistem n'Ele" (Col 1, 15-17).

Michael O'Carrol, C.S.Sp.No dia 19 de Maio de 1991, festa de Pentecostes

 

(1) Cf. "A Verdadeira Vida em Deus" I Volume, edição portuguesa, págs. 36 a 41 - Anexo 1 - Interpretação grafológica de Vassula