INÍCIO MENSAGENS
MATRIMÔNIO MÍSTICO E DIVINIZAÇÃO em
A VERDADEIRA VIDA EM DEUS

pela Irmã Seraphim Boyce

(veja também o artigo da Irmã Seraphim
Reconhecidamente Judaica)

Os escritos intitulados A Verdadeira Vida em Deus (AVVD) falam constantemente sobre a graça da divinização que Deus oferece ao mundo. Divinizar significa transformar humanos em deuses por participação na Divindade da Trindade.

Esse conceito pode espantar as pessoas, se elas não perceberem que se trata de uma expressão equivalente a receber a Vida Eterna. Trata-se da Vida Eterna de Deus, prometida por Cristo. O Evangelho e as cartas de São João estão repletos da promessa de Cristo. As cartas de São Pedro aludem a ela e as cartas que São Paulo escreveu as sete igrejas também estão repletas de referências a ela. Foi por isso que Cristo veio - para que possamos participar de Sua Vida Divina; para que possamos ser um com o Pai, assim como Cristo e o Pai são um. Ou seja, não apenas de modo semelhante, mas como Cristo e o Pai são um - uma união divina.

Somos chamados a ser filhos e filhas de Deus. Somos chamados a ser o Corpo de Cristo. Jesus Cristo é a Cabeça do Seu Corpo, a Igreja. O Corpo deve ser completamente um com sua Cabeça Divina. Aquilo que Jesus Cristo é por natureza, por ser o Filho de Deus, nós somos chamados a ser pela graça - cada um segundo o grau ou a capacidade que Deus tinha em mente para nós ao nos criar. Cabeça e Corpo divinizados com a Divina Vida Eterna de Deus, que nos foi dada em Jesus Cristo e reconquistada por meio de Sua vida e morte redentoras.

Devemos ser santos como nosso Deus é santo - não por coerção, mas pelo cumprimento voluntário do mandamento de Deus (cf. Lv 19,2 e Mt 5,48); não por dever, enquanto ação abstrata, mas por verdadeiro amor a Deus.

Só Deus é santo - "Só vós sois o Santo, só vós o Senhor, só vós o Altíssimo, Jesus Cristo", recitamos todos os domingos e dias de festa. Ser santo como Deus é santo significa ser santo com a mesma santidade do próprio Deus. A santidade de Deus é transmitida e Deus se une a cada um, de modo que as faculdades da alma (memória, entendimento e vontade) estejam em perfeita união com o Pai, o Filho e Espírito Santo. Quando essa união é total, absoluta, completa, isso é divinização, nada mais, nada menos.

A completa união da alma com a Trindade é chamada Matrimônio Místico. Matrimônio Místico significa que o Santo, o Deus Trino, une a alma a Si, em perfeita fusão, enquanto a "esposa" conserva perfeita individualidade e livre arbítrio.

O Pai, em Seu Divino Poder, inere e une-se à memória, entendida como faculdade da alma. O Filho Eterno, em sua Divina Sabedoria, inere e une-se ao entendimento, entendido como faculdade da alma. O Espírito Santo, em Sua Divina Bondade, inere e une-se à vontade humana, entendida como faculdade da alma. Com a Presença Divina nas faculdades da alma, a pessoa pensa, age e fala apenas da forma como for instruída diretamente pelo Poder, pela Sabedoria e pela Bondade de Deus. A alma deixa de agir fora da influência da Luz Divina. Chamamos isso de "cristianização". Quem se encontra com uma pessoa divinizada descreve o encontro assim: "Foi como se eu estivesse falando com o próprio Jesus."

O Pai só pode habitar a memória se ela possuir esperança pura 1 . O Filho Eterno só pode habitar o entendimento se ele possuir fé pura 2 . O Espírito Santo só pode habitar a vontade humana se ela possuir caridade pura 3 . Em outras palavras: a esperança esvazia a memória, a fé esvazia o entendimento e a caridade esvazia a vontade. Essas três faculdades da alma têm de ser esvaziadas pelas virtudes teologais, pois estas transcendem a razão e a lógica humanas.

O modo de entender simplesmente humano, que usa os sentidos e a inteligência discursiva, deve ser transcendido antes que se possa estar preparado para a união com o Deus transcendente. Todos os meios devem ser apropriados para o seu fim: devem manifestar uma certa conformidade e semelhança com o fim. As ervilhas não cozinharão enquanto não atingirem a mesma temperatura da água quente. A lenha não queimará enquanto não atingir o mesmo grau de calor do fogo. Nada, nenhuma criatura, pode servir ao entendimento como um recurso adequado ao conhecimento de Deus. Nada do que o intelecto possa compreender, a vontade experimentar ou a imaginação conceber é similar ou apropriado para Deus.

As lacunas criadas pelas virtudes teologais da fé, esperança e caridade são mais próximas de Deus, no sentido de adaptarem as faculdades humanas para a participação no Deus transcendente. Elas elevam o homem acima de si mesmo, transformam-no e o dispõem a recuperar a plenitude da imagem e semelhança divinas, com as quais e para as quais ele foi criado.

O Catecismo da Igreja Católica, no nº 1.812, afirma: "As virtudes humanas se fundam nas virtudes teologais, que adaptam as faculdades do homem para participarem da natureza divina. Pois as virtudes teologais se referem diretamente a Deus. Dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade e têm a Deus Uno e Trino por origem, motivo e objeto."

As quatro virtudes cardeais também são infundidas em nós pelo Santo Batismo, juntamente com as três virtudes teologais. Essas sete virtudes, praticadas heroicamente, são as bases tanto para a beatificação quanto para a canonização. As virtudes cardeais são: fortaleza, temperança, justiça e prudência. Todas elas estarão plenamente ativas na alma divinizada.

A fortaleza auxilia nas paixões da esperança, desespero, medo, ousadia (coragem) e ira. Essas paixões vêm à tona quando há dificuldades em fazer o bem ou evitar o mal. A temperança auxilia nas paixões do amor, ódio, desejo, desgosto, prazer e tristeza (sofrimento). Estes se referem ao bem e ao mal sem nenhuma percepção de dificuldade. A justiça aperfeiçoa a vontade nas ações sociais do homem. Essas três virtudes cardeais são conduzidas pela quarta, a prudência, que brota do interior da caridade.

No Batismo todas as virtudes teologais e cardeais são infundidas em nossa alma pela Santíssima Trindade. Quando a caridade é a motivação de todas as nossas ações, essas virtudes são aperfeiçoadas pelos dons do Espírito Santo. Isto é, primeiro somos motivados pelo amor a Deus e, depois, pelo amor ao próximo como Deus nos ama (Jo 13, 34: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei").

Os dons do Espírito Santo são ciência, inteligência, conselho, sabedoria, piedade, fortaleza e temor de Deus. O pecado, todo mínimo sinal de consentimento na vontade contrária à glória de Deus, seja ou não expresso exteriormente, anuvia a transparência da alma. Toda "nuvem" tem de ser expulsa, evaporada, para se restituir a transparência. Isso é realizado pela cooperação de nosso livre arbítrio com as virtudes. Os "vazios" criados pelas virtudes praticadas são exatamente essa "transparência" por meio da qual a Luz Divina habita em nós e, assim, nos diviniza. Tal divinização é possível a todos, e apenas o arrependimento sincero é necessário para abrir as comportas à graça para a caminhada começar.

Na Verdadeira Vida em Deus encontramos:

"Todas as almas às quais estou unido tornam-se noivas também, pois, no relacionamento íntimo que tenho com elas, Eu Me torno seu Noivo, todos os dias de sua vida. E assim será com você, se você se enamorar de Nós. Voluntariamente você se confiará a Mim e saboreará a plenitude do Meu Amor Divino. Desde seu nascimento, Eu ansiava por possuí-la e, enquanto a via crescer, Eu já estava, em segredo, celebrando nosso noivado. Eu correria para você ao primeiro sinal de arrependimento, Eu gritaria, batendo com Meu Cetro Real:

'Absolvida!'

e marcaria sua fronte com Meu ardente beijo batismal, perfumando todo o universo. Isso seria um sinal precursor de nossa celebração matrimonial, e Eu lhe ofereceria, como um dom do Meu Amor, uma coroa feita com as flores mais perfumadas.

Cada uma de suas pétalas representaria uma virtude. Só então você poderia dizer "eu vejo", querendo dizer realmente isso."

("Odes da Santíssima Trindade", em português, está incluída no vol. 12 de AVVD)

As mensagens de Jesus a Vassula Ryden prometem que cada um receberá uma teofania pessoal (Nota: teofania é uma visão de Deus, por símbolo ou visão intelectual ou espiritual). Isso será uma vinda da Santíssima Trindade, que funcionará tanto como um aviso relacionado ao nosso estado espiritual quanto como oferecimento da graça do arrependimento. O Pai, o Filho e o Espírito Santo serão percebidos através de uma graça de iluminação.

"Suas almas verão o que viram uma vez, naquela fração de segundo, no exato momento de sua criação...
Elas verão:
Aquele que as teve primeiro em Suas Mãos;
os Olhos que as viram primeiro.
Elas verão:
as Mãos dAquele que as formou
e as abençoou...
Elas verão:
o Mais Terno Pai, Seu Criador
todo revestido de temível esplendor,
o Primeiro e o Último,
Aquele que é, que era e
que há de vir,
o Onipotente,
o Alfa e o Omega:
o Soberano."
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Isto é, nós vislumbraremos o Pai. Depois, também sentiremos, em nossa visão espiritual, a Luz do Espírito Santo trespassando-nos, a partir do olhar penetrante de Cristo, que também estará diante de nós. Nossa alma se tornará consciente de todos os acontecimentos de nossa vida, pois nossos olhos serão trespassados pelos olhos de Cristo, que serão como duas Chamas de Fogo (Nota: as chamas dos olhos de Cristo são o Espírito Santo - cf. Dn 10,6; Ap 1,14;5,6). Nosso coração recordará todos os nossos pecados (Ver AVVD, 15/9/1991, para mais detalhes sobre o Segundo Pentecostes). Veremos toda a verdade relativa a nosso estado espiritual diante de Deus, exatamente como Ele nos vê. Normalmente, essa é a visão que nos é dada no momento da morte, quando a alma é mergulhada na Divina Verdade e vê a realidade espiritual do mal em si e, conseqüentemente, seu justo julgamento.

Com essa experiência autêntica é oferecida a abundante graça do sincero e completo arrependimento. Como todos os nossos pecados são revelados (incluindo os que não admitimos, por nos termos habituado a eles e termos perdido o sentido de pecado com relação a eles), nossa contrição será um Ato de Contrição Perfeita. A Igreja Católica ensina que um Ato de Contrição Perfeita torna uma pessoa apta a entrar imediatamente no céu (ex. o bom ladrão no Calvário). Isso porque ele é santificante, sendo fruto direto da cooperação com o Espírito de Verdade, o Espírito de Santificação - o Espírito Santo.

Conseqüentemente, a contrição que resulta dessa teofania (também chamada o Segundo Pentecostes) torna a alma, após confissão sacramental, receptiva à direta plenitude da santidade, que, sendo completamente cultivada, leva rapidamente à divinização. Se não víssemos todos os nossos pecados, isso não seria possível, pois a contrição por apenas alguns pecados não-confessados que relembramos deixaria a impureza dos demais e impediria a divinização.

A santidade dada por Jesus neste momento é a grinalda da virtude, como prometida na mensagem citada. Ela tem que ser mantida e desenvolvida por uma vida de completa adesão ao Evangelho, em incessante metanóia e teosis, isto é, voltando-se totalmente para Deus e sendo conscientemente uma outra humanidade para o Verbo na terra. A santificação da alma como puro dom não dura, mas morre com o pecado. Contudo, a infusão da virtude, especialmente a virtude da contrição, torna possível um afastamento do desejo de cometer pecados mortais e mesmo pecados veniais deliberados; o pecado será eliminado da vida da pessoa, por opção.

O principal meio para manter o dom da santificação que leva à divinização da alma será a Santíssima Eucaristia, que vai conceder-nos plenamente sua Divindade. Essa concessão de divindade será facilitada pela perfeita conformidade da nossa vontade com a Vontade de Deus. Sem esse "canal", nem a Comunhão diária concede sua divindade inerente à alma, mas apenas as luzes e graças que nos ajudam a atingir tal conformidade e unidade de vontade com Deus.

Como foi mencionado antes, apenas a Luz Divina do Espírito Santo, que revela todos os nossos pecados, permite esse dom instantâneo de santidade, isto é, na medida em que aceitarmos completamente a graça do arrependimento. Não há nenhum "vácuo" na alma humana. Quando a vontade está totalmente voltada para Deus, ela é imediatamente preenchida por Deus, já que é a ação do Espírito Santo que realiza tal atração, quando aceitamos Sua graça. Então, instantaneamente, Cristo habita a alma. Cristo, ao tomar posse das almas no estado de Sincero Arrependimento, reside nelas, como prometeu (cf. Jo 14,23), por tanto tempo quanto a pessoa mantiver essa posse, pela virtude praticada por meio do Matrimônio Místico. Isso é conhecido como "Segunda Vinda" ou o "Reino de Cristo na terra": Ele reina, em Sua Divindade, na alma e dirige e orienta seus pensamentos, palavras e ações na bondade e virtude.

O Segundo Pentecostes e a Segunda Vinda são, portanto, dois aspectos da mesma teofania. Aquelas imagens simbólicas no Livro de Apocalipse indicam isso. A promessa do reinado milenar de Cristo (cf. Ap 20,6) contém o número bíblico que simboliza a eternidade divina. Assim, ele simplesmente significa que Cristo reinará, em Sua Divindade. Ele o fará reinando nas almas dos homens (ver artigo sobre O Reino de Mil Anos de Cristo).

A teofania profetizada na mensagem de AVVD em 15 de setembro de 1991 dura, em si mesma, apenas alguns momentos, pois é preciso apenas um flash da Luz Divina para nos revelar tudo. Os efeitos duram horas, dias ou semanas e, em alguns casos, levam a meses de pranto, com sincero arrependimento, sobre os pecados reconhecidos. Algumas pessoas que já receberam essa graça falaram do pranto por Cristo, dizendo que, no momento dessa iluminação, sentem a dor dEle pelos pecados que elas cometeram. Outros falam de uma suave ação da graça que durou muitas semanas e mostrou-lhes os pecados de suas vidas gradualmente no tempo e com menos dor.

A contrição provocada pela experiência do Segundo Pentecostes permanece na alma como um sentimento de pesar profundo e duradouro. É isso que possibilita que a alma evite todo pecado, com uma resolução muito firme e determinada de não querer pecar novamente. Quando o pecado exerce uma atração, essa sensação de pesar influencia a alma com um magnetismo sereno, suave, em oposição ao pecado. Assim, temos consciência de sermos agraciados com a pureza (se a aceitarmos). O primeiro mês ou mais de resistência ao pecado é o mais difícil, pois temos que apagar o hábito do pecado, mas temos esse auxílio interior; acreditamos que é verdade que com Deus tudo é possível - leopardos podem remover suas manchas, leões podem deitar junto aos cordeiros, o bebê de peito pode pôr sua mão na cova da serpente, ileso. Tudo isso se refere a realidades espirituais.

Como sabemos que uma teofania, uma luz do Espírito Santo numa visão do Pai e do Filho, pode realizar uma conversão, levando uma pessoa a mudar tão drasticamente, de modo a atingir a santidade e a divinização (Matrimônio Místico) em tão poucos anos? Como uma teofania pode dar a uma pessoa, em dez anos, aquela santidade de vida que de outros requer uma vida inteira? Há duas respostas. A primeira é óbvia: a própria Vassula transmite a mensagem de que o Espírito Santo vai nos elevar, de corpos espirituais carcomidos pela corrupção e caídos num deserto de pecado, e vai nos conceder as Núpcias Espirituais da divinização. A própria vida dela dá testemunho exatamente dessa mensagem. Resumindo, ela é um sinal da mensagem que prega (cf. AVVD 18.10.1987). A segunda resposta é que sabemos dessa possibilidade porque esses tipos de conversão são encontrados em testemunhos de outros e foram escritos e preservados na Igreja na vida de muitos santos. O rápido vôo do pecado à santidade é visto especialmente nos santos que tiveram vida muito curta. Essas vidas breves são para nos revelar a possibilidade e o poder de Deus de realizar essa transformação em qualquer um, em qualquer idade. Alguns são tentados ao desespero devido à idade avançada, mas Deus pode fazê-lo. Então eles também testemunham a veracidade da mensagem central da Verdadeira Vida em Deus.

Em si mesma, a graça do Segundo Pentecostes não é nova. A única razão pela qual ela é considerada sem igual em nossa era é a universalidade de sua vinda. Do mesmo modo, a divinização de indivíduos não é novidade. Alguns dos primeiros escritores cristãos escreveram sobre ela e a Igreja Ortodoxa conservou o uso da palavra, bem como a espiritualidade do arrependimento e da divinização, santidade e santo pesar. Na Igreja Católica nos foi transmitido o nome Matrimônio Místico para o estado de divinização, por isso somos mais familiarizados com essa terminologia no Ocidente.

Cristo reinou, em Sua divindade, em inúmeras miríades de almas na terra, desde o início do cristianismo. Na Igreja primitiva, o nome "Vida Eterna" (como no Evangelho e nas Epístolas) foi dado para a realidade fundamental de receber a própria Vida Eterna de Deus, que nos faz participantes da natureza divina (2Pd 1,4). A razão para a singularidade da teofania do Segundo Pentecostes/Segunda Vinda reside não na sua natureza, mas em sua universalidade. Aquilo que foi recebido no passado por uma minoria será recebido pela maioria. Nunca, anteriormente, os membros da Igreja estiveram todos sem pecado. É por isso que esse acontecimento será diferente. Apenas em Maria, aos pés da Cruz, na morte de Cristo, toda a Igreja estava imaculada, sem manchas nem rugas, e completamente pura na fé.

A pureza é fruto direto da cooperação com a ação santificante do Espírito Santo. A divinização, ou matrimônio místico, significa que o Pai, o Filho e o Espírito Santo tomam posse das três faculdades da alma (como vimos anteriormente). Como a vontade humana permite que Deus habite nelas completamente, a pessoa quer somente o que Deus quer. Conseqüentemente, o pecado é eliminado. O Novo Éden de que Jesus fala com Vassula na AVVD é realmente o Jardim do Éden: pureza na aurora imaculada da criação. Mas não se trata de um lugar. Ele está na alma do homem. Nós estaremos na Nova Jerusalém, que é a Igreja. Nós vamos tomar parte no matrimônio místico com o Cordeiro - mas tudo isso acontece no interior da pessoa que recebe o Segundo Pentecostes, arrepende-se e vive todas as virtudes e o Santo Evangelho. Em poucas palavras, da pessoa que se torna um outro Jesus pela graça, como Jesus o foi por natureza. Adão, no Éden, é chamado por São Lucas de "o Filho de Deus" (Lc 3,38). Falando sobre a Lei do Antigo Testamento, São Paulo escreve aos gálatas: "Chegada, porém, a fé, não estamos mais sob pedagogo; vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus" (3,25-26).

No contexto deste artigo, "fé" não se refere ao fato de acreditarmos que existe um Deus, mas de colocarmos em Deus a nossa fé. Muitos crêem que existe um Deus, mas poucos realmente colocam sua fé nEle. Colocar nossa fé nEle significa acreditar realmente em tudo o que Ele prometeu fazer por nós, coletiva e individualmente. Portanto, agiremos em total abandono à vontade de Deus, com confiante gratidão. Nós realmente acreditamos que tudo de bom ou mal que nos acontece vem de nosso Pai amoroso, para nosso bem espiritual. Isso é fé em Deus. A teofania de Ezequiel, na qual ele viu um bronze incandescente no meio da nuvem (cf. Ez1,4), prefigura o corpo de Cristo ardendo na fornalha do sofrimento (Jesus: pés de bronze incandescente - Ap 1,15). Na divinização, experimentamos a Cruz na terra: sofrimento no centro da divinização. Tornamo-nos bronze incandescente no centro da nuvem da Divindade.

A fim de preparar para o matrimônio místico, Vassula defende a simples teose [N.T.:Divinização ou deificação] - "nós, nos": Fazemos, conscientemente, todas as coisas junto com Jesus, convidando-O a realizar todas as ações humanas do dia-a-dia conosco e por meio de nós. Isso produz a oração incessante e a eliminação de todo pecado, pois, diante da presença de Jesus, nós só permitimos, em nosso ambiente de casa, trabalho ou entretenimento, aquilo que não é pecado. Isso traz muitas formas de sofrimento.

A divinização e o matrimônio místico não são possíveis sem o pleno conhecimento e arrependimento de tudo o que é pecado em nós, ainda que estejamos vivendo uma vida aparentemente boa. O reconhecimento do pecado oculto - nos mais profundos níveis de apego da nossa vontade aos pecados não admitidos - só é possível por meio de uma infusão de Luz Divina. Mesmo agora, a revelação de nosso pecado é geralmente a presença oculta do Espírito Santo brilhando em nós: só quando a luz brilha é que podemos ver o que precisa ser limpo. Tal graça do Espírito Santo para nossa conversão inicial é necessária durante a vida - a história dos santos mostra isso (ver adiante). Como a teofania prometida revela todo pecado, o sofrimento pode ser demais para alguns. Precisamos nos preparar para isso, vivendo santamente, por meio da teosis "nós, nos".

Santa Clara escolheu uma vida de severa penitência porque, como disse em seu testamento: "o Altíssimo iluminou meu coração para fazer penitência". Em seu leito de morte, ela só conseguia falar às irmãs sobre as sublimes verdades referentes à Santíssima Trindade em sua alma.

Tendo sido iluminado, São Francisco de Assis decidiu-se por uma vida de pobreza e vivência do Evangelho; contudo, ele também precisou que o Espírito Santo revelasse profundas verdades sobre si mesmo. "Quem és Tu e o que sou eu?", ele orou. Quando Frei Leão perguntou o que ele queria dizer com essa oração, Francisco respondeu: "Duas luzes foram reveladas à minha alma: uma do conhecimento de mim mesmo... Vi as amargas profundezas de minha própria maldade e miséria..." 5 .

Santa Faustina escreve em seu Diário: "Hoje o olhar do Senhor trespassou-me brevemente. De repente, eu tomei consciência dos mínimos detalhes da minha alma e, conhecendo a profundidade da minha miséria, caí de joelhos e implorei o perdão de Deus e, com grande confiança, mergulhei em Sua Infinita Misericórdia" 6 .

Santa Catarina de Gênova "experimentou um amor por Deus tão repentino e forte e uma sensação de contrição por seus pecados tão penetrante que quase desmaiou. Em seu coração, ela disse: 'Chega de mundo para mim! Chega de pecado!' Ela ficou reclusa em casa por vários dias, absorvida numa profunda consciência de sua própria miséria e da Misericórdia de Deus" 7 .

Santa Gertrudes escreveu: "Após a infusão de Tua dulcíssima luz, vi muitas coisas em meu coração que ofenderam Tua pureza e até percebi que todo meu interior estava numa tal desordem e confusão que Tu não poderias habitar nele... quando reflito sobre o tipo de vida que levei anteriormente e que levava até agora, declaro em verdade que isso é pura ação de Tua graça, que me concedeste sem nenhum mérito meu. Tu me deste, a partir de agora, um conhecimento mais claro de Ti mesmo, que foi tal que a doçura de Teu amor leva-me a corrigir minhas faltas muito mais do que o medo dos castigos com que Tua justa ira me tratou." Após essa graça, Santa Gertrudes passou a discernir a presença da Trindade em seu interior. 8

De Santa Brígida da Suécia nós lemos: "Quando seu marido morreu, ela experimentou a profunda transformação de seu ser na noiva de Cristo" 9 .

Todos esses santos que passaram pela experiência do Segundo Pentecostes foram também fiéis à completa renúncia do pecado e à prática da virtude. Assim, cada um deles chegou muito depressa à experiência da divinização ou matrimônio místico. A graça pode ser oferecida, mas se desenvolve com a prática da fé, esperança e caridade. O Segundo Pentecostes não é uma "varinha mágica" que transforma instantaneamente a alma num santo, mas dá aquela graça muito profunda de contrição que dá início ao rápido vôo em direção à plenitude do matrimônio místico e divinização.

(A autora deste artigo nota que quem jejua a pão e água uma vez por semana faz esse rápido progresso na vida espiritual, mas não sabe particularmente por quê.)

Temos uma rica tradição histórica dos Padres e Doutores da Igreja que escreveram sobre divinização e matrimônio místico, então vamos consultar alguns deles e começar com uma pergunta.

Quando uma pessoa é divinizada, ela vivencia isso conscientemente? Sim. Essa é a diferença entre a vida divina dada no batismo e o matrimônio místico. Poulain, em sua grande obra As Graças da Oração Interior, escreve: "O batismo e a graça santificante já nos dão essa participação na natureza divina, mas trata-se de um estado inconsciente. No matrimônio místico é o contrário. Estamos então conscientes da comunicação da vida divina. Deus não é mais meramente o objeto dos processos sobrenaturais da mente e da vontade, como no grau anterior. Ele se mostra como sendo a origem comum a esses processos, o auxílio do qual nos servimos para produzi-los. Nossas ações nos parecem como sendo, de certo modo, divinas. Nossas faculdades são os ramos nos quais sentimos a circulação da seiva divina. Acreditamos sentir Deus em nós, vivendo por nós e por Ele. Nós vivemos nEle, com Ele e por meio dEle. Nenhuma criatura pode se manifestar a nós desta maneira.

No Céu, o mecanismo da graça vai aparecer em toda sua clareza; veremos, assim, desvelado o 'casamento' de dois processos, o divino e o humano, e até mesmo a predominância do primeiro, nossa 'divinização', em outras palavras. O quarto e último grau de oração é a antecipação, o antegozo mais ou menos notável desse conhecimento experimental. Nos graus mais baixos, a transformação começou, mas sabemos disso apenas pela fé." 10

Santo Afonso de Ligório resume essa linguagem dizendo: "No matrimônio místico, a alma é transformada em Deus e se torna um com Ele, exatamente como um vaso de água, quando derramado no mar, é um com ele." 11

Santa Teresa de Ávila, em "O Castelo Interior", escreveu: "Além disso, essa companhia de que ela desfruta lhe dá muito mais força do que nunca. Se, como Davi diz, 'Com o santo tu deves ser santo', sem dúvida, ao se tornar um com o Onipotente, pela união de espírito com espírito, a alma deve adquirir força, como sabemos que os santos adquiriram, para sofrer e morrer..." 12

Qualquer que seja o ponto de vista adotado, este, de toda forma, é o caso em que parece à alma não conseguir mais pecar, tão plenamente ela se sente participante da vida de Deus. Isso não a impede de ver muito claramente, ao mesmo tempo, que por si mesma ela é capaz de toda sorte de pecados. Ela vê o abismo no qual pode cair e a poderosa Mão que a sustém. 13

Poulain cita o que São João da Cruz escreveu em "A Subida do Monte Carmelo": "Logo que a alma se disponha (...) fica transformada naquele que lhe comunica o ser sobrenatural, de tal maneira que parece o mesmo Deus, e tem em si mesma tudo o que Deus tem. Esta união se realiza quando o Senhor faz à alma esta sobrenatural mercê, por meio da qual todas as coisas divinas e a alma se unificam por transformação participante: a alma, então, mais parece Deus que ela mesma, e se torna Deus por participação, embora conserve seu ser natural, tão distinto de Deus quanto antes, nessa atual transformação; assim como o vidro continua sempre distinto do raio que nele reverbera." 14

E novamente:

São João da Cruz também escreve, com relação ao matrimônio místico, em "Cântico Espiritual": "É, sem comparação alguma, muito mais elevada esta união do matrimônio do que a do desposório [equivale ao "noivado"] espiritual. Trata-se de uma transformação total no Amado; nela se entregam ambas as partes por inteira posse de uma a outra, com certa consumação de união de amor, em que a alma é feita toda divina, e se torna Deus por participação, tanto quanto é possível nesta vida. Por isso, penso, jamais a alma chega a esse estado sem que esteja confirmada em graça, porque nele se confirma a fidelidade de ambas as partes, e, conseqüentemente, a de Deus na alma. 15 "

Poulain também cita São João da Cruz com relação à aspiração de Deus na alma, que partilha a mesma aspiração do próprio Deus na Trindade. O texto é muito extenso para ser transcrito aqui, mas os efeitos podem ser citados: "Se Deus, de fato, lhe concede a graça de ser unida à Santíssima Trindade, tornando-se a alma assim deiforme e Deus por participação, como podemos achar incrível que ela tenha em Deus todo o seu agir, quanto ao entendimento, notícia e amor, ou, dizendo melhor, sejam as suas operações todas feitas na Santíssima Trindade, juntamente com ela, como a mesma Santíssima Trindade?" 16

A venerável Anne-Madeleine de Remuzat registrou, sete anos antes de sua morte (aos 26 anos), o seguinte: "Encontrei-me repentinamente na presença das Três adoráveis Pessoas da Trindade... Compreendi que Nosso Senhor queria me dar um conhecimento de Seu Pai e de Si Mesmo infinitamente mais completo do que tudo o que eu conhecera até aquele dia... Quão admiráveis eram os segredos que me foram revelados neste adorável Coração e por meio dele!... Meu Deus, Tu quiseste divinizar minha alma, por assim dizer, transformando-a em Ti mesmo, após ter destruído sua forma específica..." 17

Em sua obra "Vie", Pe. Prévot escreve, referindo-se à Madre Verônica do Coração de Jesus, fundadora das Irmãs Vítimas do Sagrado Coração: "A forma mais perfeita de sua união era um tipo de co-incorporação de todo o seu ser pela Divindade, de modo que ela sentia o próprio Deus pensar, falar e agir nela e tornar-se a razão de todos os seus movimentos" 18

Podemos ver claramente que a teose nos prepara para o matrimônio místico. (Teose significa pedir conscientemente a Jesus que realize todas as ações em nós e por meio de nós. Nós nunca dizemos "eu vou fazer compras, eu deixo você em casa, eu vou preparar o jantar agora", sem acrescentar interiormente: "Jesus, nós vamos sair... dirigir... preparar o jantar." Os efeitos disso já foram mencionados neste artigo.)

Mais recentemente, Santa Dina Bélanger, que morreu aos 33 anos, em 1929, vivenciou o que chamava de Divina Substituição de Jesus pelo seu ser. Ela explicou que era como se somente Jesus pensasse, agisse e falasse nela o tempo todo. Além disso, ela percebia parte dela no Céu, participando, pela oração, de todos os bens e graças da Santíssima Trindade disponíveis.

Toda sua vida exemplifica com detalhes o significado do matrimônio místico e da divinização, bem como a união cada vez mais profunda com a Trindade, que revela continuamente novas maravilhas, totalmente espirituais. Assim como todos os que são divinizados, ela ansiava por manter e aumentar seu amor e sua fidelidade a Deus e com Deus. Ela o fez por meio da Santa Eucaristia. Em sua autobiografia, ela escreve:

"Meu corpo continua a viver nesta terra sombria e distante, que eu já não habito; ele continua a agir por meio da ação e da vontade de Jesus. Minha alma, pacificada, consumida, foi absorvida pelo Eterno, no céu... Por meio de Nosso Senhor, substituído pelo meu ser aniquilado nele, tenho à minha disposição as riquezas do Infinito. Não só em meu nome, mas em nome de todas as criaturas racionais, eu tenho que devolver amor por amor e oferecer Amor infinito em resposta ao Amor eterno da Trindade divina... Em uma alma elevada até Jesus, a Santa Comunhão é o transbordamento do Infinito no Infinito, é a satisfação da Perfeição soberana na Beleza suprema, é o dom do Eterno ao Incriado; é o abraço entre Deus Pai e seu Verbo, emanando no Espírito de Amor uma onda de amor que passa entre as três adoráveis Pessoas, uma explosão de ternura do Coração da Unidade indivisível... Se ao menos soubéssemos quanto o entendimento à luz da eternidade difere do entendimento na obscuridade temporal!... Se as almas ao menos percebessem que Tesouro possuem na divina Eucaristia, os sacrários teriam que ser protegidos por muralhas indestrutíveis; pois, sob a influência de um santo e ardente desejo, elas iriam por iniciativa própria alimentar-se do Maná do serafim; dia e noite as igrejas estariam transbordando de adoradores consumidos de amor pelo augusto Prisioneiro." 19

A Autobiografia de Santa Dina Bélanger contém relatos da Luz Divina que revelou as profundezas de sua miséria, descrições minuciosamente detalhadas de sua Divina Substituição por Jesus e as visões que teve interiormente de estar na Santíssima Trindade. Ela poderia ser chamada um dos protótipos que exemplificam os ensinamentos sobre o matrimônio místico/divinização que está sendo oferecido a toda esta geração, ainda que seja necessária, e será necessária, a intervenção direta de Deus numa teofania pessoal para cada indivíduo. A possibilidade da liturgia vernácula e do maior acesso à Palavra de Deus após o Concílio Vaticano II foi oferecida para ajudar as pessoas a reconhecer que todos na Igreja são chamados à santidade pessoal. Estávamos sendo preparados para esta Era de "Nova e Divina Santidade", assim chamada pelo Papa João Paulo II 20 .

Quando Deus ergue profetas para nos revelar os desejos de Seu Coração, Ele também envia precursores ou modelos de Sua mensagem: nada acontece sem mais nem menos, nada é totalmente desconhecido. Vassula Ryden não prega nenhuma mensagem nova sobre arrependimento e divinização ou matrimônio místico. A Igreja é nupcial, esponsorial, pura, divinizada: essa afirmação poderia ser confirmada com referência a séculos de ensinamentos dos Padres, Doutores e Santos da Igreja, e o ensinamento pode ser indicado para desenvolver as próprias Escrituras e pode ser sustentado por elas. Como vemos, ele sempre existiu, mas, apesar de 2 mil anos de Cristianismo, nunca antes aconteceu de todos os batizados participarem simultaneamente da plenitude da santidade oferecida pela própria Igreja. No exato momento em que a apostasia do naturalismo e racionalismo parece estar tomando conta da Igreja e criando nela uma pseudo-igreja de cadáveres espirituais num deserto espiritual, Deus vai abrir a porta do sepulcro de nosso mundo e o Espírito Santo vai ressuscitar a Igreja, por meio do arrependimento e da santidade. Isso tem que acontecer num tempo em que tudo parece perdido, pois essa é a via de Deus, como revelado nas Sagradas Escrituras, para que fique claro que se trata de obra Sua.

Vinde, Espírito Santo, vinde pela poderosa intercessão
do Imaculado Coração de Maria, Vossa amadíssima Esposa.
O Espírito e a Esposa dizem "Vinde".
Amém.
Vinde, Senhor Jesus.



BIBLIOGRAFIA

Autobiography of Dina Bélanger. pub.Les Religieuses de Jésus-Maria. 2049, chemin Saint-Louis, Sillery (Quebec) Cananda. GIT 1P2. ISBN 2-980 4106-3-2

Catherine of Genoa. Purgation and Purgatory, The Spiritual Dialogue. The Classics of Western Spirituality. SPCK. Holy Trinity Church, Marylebone Road, London, NW1 4DU. ISBN 0281 03709 4

The Life of Saint Birgitta of Sweden, Patroness of Europe. (Livro limitado estritamente ao uso privado - não é vendido)

Birgitta of Sweden Life and selected revelations The Classics of Western Spirituality. ISBN 0 - 8091 - 3139-0

Divine Mercy in My Soul. The Diary of Sister M Faustina Kowalska. Divine Mercy Publications. P.O, Box 2005. Dublin 13, Ireland. ISBN 1 87227 00 8

The Life and Revelations of St Gertrude - Virgin and Abbess of the Order of St.Benedict. A Powerful Work From the Middle Ages on Union with Christ. Christian Classics, Inc. Post Office Box 30, Westminster, Maryland, 21157. USA ISBN 0 - 87061-079-1

The Graces of Interior Prayer. R.P. Poulain S.J. translated from the sixth edition . Kegan Paul, Trench, Trubner & Co., Ltd. Dryden House, Gerrard Street,W. Published 1910.


1 cf. São João da Cruz. A Subida do Monte Carmelo 3:1-15
2 cf. ibidem 3:8-32
3 cf. ibidem 3:16-45
4 AVVD 15/9/1991
5 Fioretti, 3ª Consideração sobre os Estigmas
6 852
7 Catarina de Gênova. Classics of Western Spirituality
8 Revelações de Santa Gertrudes 2:2,3
9 Brígida da Suécia. Classics of Western Spirituality
10 XIX:13. p.288
11 ibidem. XIX:14
12 ibidem. Sétima Morada: ii:13
13 Poulain. p. 291
14 Livro 2,V
15 Canção XXII, linha 1
16 ibidem. Canção XXXIX: linha 1
17 Poulain p. 296
18 ibidem p. 298
19 p. 230-231
20 L'Osservatore Romano 9/7/1997


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