A Verdadeira Vida em Deus

     Boletim Informativo         

17 de julho de 2008   www.tlig.org/pg.html  

CONTEÚDO

 

1. "Jesus Se Aproximou e Começou a Caminhar Com Eles..."
Pe. Geraldo Simeão

2. "A Túnica Era Sem Costura"
Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.

 


"Jesus Se Aproximou e Começou a Caminhar Com Eles..."

Pe. Geraldo Simeão nos envia a homilia que proferiu na Missa de encerramento do V Retiro Latino Americano de AVVD, realizado de 31 de março a 6 de abril.

Tive a oportunidade de fazer a homilia na missa de encerramento do V Retiro Latino Americano da AVVD, na qual procurei fazer uma reflexão fundamentando algumas dimensões dessa obra na Palavra de Deus, celebrada na Liturgia da Igreja daquele domingo, o 3º do Tempo Pascal; e também no Magistério da Igreja, precisamente na belíssima homilia do Frei Raniero Cantalamessa dirigida à Casa Pontifícia, na sexta-feira Santa de 2008, onde se falou sobre o Ecumenismo. O que se segue é uma reflexão mais aprofundada da homilia; que tratei de pôr no papel tão logo cheguei do encontro.

Creio que AVVD é um tesouro espiritual ainda a ser descoberto pela Igreja. Oxalá possa essa reflexão ajudar nessa descoberta, sobretudo, àqueles que têm dúvidas e, em conseqüência disso, a refutam, desprezando assim, o mistério do Emanuel. Sei, também, que ela será valorizada no seu tempo, portanto, não tenho nenhuma pretensão de convencer ninguém, o próprio Mestre nos dispensou de tal tarefa "... Eu não te chamei para convencer ninguém, te chamei para anunciar a minha mensagem, quem tem ouvidos ouça". (II Vol.)

Parto da 1ª leitura, Atos 2, 14.22-33: "No dia de Pentecostes, Pedro de pé, com os onze apóstolos ergueu a voz e falou ao Povo: 'Homens de Israel, ouvi essas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio inevitável e previsão de Deus, vós destes-lhe a morte cravando-o na cruz pelas mãos de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, livrando-o dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio... Foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que Ele derramou como vedes e ouvis'".

Temos aqui o querigma apostólico, de forma estilizada e sintética, isto é, a Boa Notícia do amor apaixonado do Pai, cujo amor enviou Seu filho ao mundo para nos salvar; Jesus "passou fazendo o bem" e por amor se entregou na cruz; por amor o Pai O ressuscitou e O constituiu Senhor e Cristo: foi o triunfo do amor do Pai que não conhece limites! Mas não ficou só nisso: Ele nos incluiu nesse amor: "Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo, que ele derramou como vedes e ouvis". Diante desse anúncio, cabe ao homem unicamente o arrependimento (conversão), e a adesão (fé) a Jesus Salvador e Senhor para receber o Dom do Espírito.

Há pelo menos uns 13 anos que leio AVVD. No seu estilo próprio nos conduz a esse alicerce da vida cristã: à experiência do amor incondicional de Deus. Há inúmeros textos na AVVD nos quais Deus declara esse amor apaixonado e de forma pessoal, surpreendendo, muitas vezes, a própria mensageira Vassula, é um amor que não fica parado diante do pecado da humanidade, "corre" em busca do homem, utilizando-se de todos os meios para renovar, no nosso coração, a grande novidade do Seu amor, a Salvação: "Oxalá, ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras". (Sl 94, 8-9)

Pensemos na tríplice ação do Espírito Santo: Ele dá condições de se converterem, àqueles que escutam a Boa Notícia da Salvação; congrega os Filhos de Deus dispersos, fazendo desses um só povo na unidade e é o Poder de Deus, Força do Alto, para os discípulos darem continuidade à mesma missão do Mestre: Anunciar, implantar e estender o Reino já aqui nesse mundo, cujo fundamento é o Amor.

Vamos dar uma atenção especial à 3ª dimensão: "Poder de Deus, Força do Alto"; no relato de Pentecostes e em outros, o Espírito se manifestou com carismas e dons, a fim de que Jesus fosse anunciado com poder e prodígios, como no Seu próprio ministério. Entre esses dons merecem destaque a profecia e a unidade. Profecia que conduz para a unidade! Esses dons são tão evidentes na AVVD quanto na Igreja Apostólica!

Voltemos nosso olhar para a unidade, pois, é cada vez mais claro o desejo do próprio Cristo: a reintegração da unidade entre os cristãos divididos e AVVD é um "brado" de Jesus para reconstruirmos o Seu Corpo místico dividido. É uma obra profética e carismática para aquecer os corações frios nesta busca da unidade.

Raniero Cantalamessa disse no seu sermão de sexta-feira Santa: "De um século para cá, nós observamos repetir-se sob os nossos olhos, este mesmo prodígio, em escala mundial. Deus infundiu o Seu Espírito Santo, de modo novo e raro, sobre milhões de fiéis, aparentemente em quase todas as denominações cristãs, e a fim de que não houvesse dúvidas sobre Suas intenções, O infundiu com as mesmas e idênticas manifestações. Não é este um sinal de que o Espírito que impele a reconhecer o episódio como discípulos de Cristo a tendermos juntos para a unidade"?

Vimos esse despertar da Igreja para a nova evangelização, evangelização querigmática e carismática que revela toda potência do Espírito. Os últimos Papas têm nos convocado para isso, na América Latina esse despertar se mostra evidente na V Conferência do CELAM em Aparecida. Mas, não podemos esquecer da condição "Sine Quanon" para o êxito da evangelização: a unidade: "Pai, que todos sejam um para que o mundo creia que tu me enviaste". (Jo 17,20-21) A unidade dos discípulos é para João o propósito pelo qual Cristo morre: "Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos". (Jo 11,51-52)

Li um dos comentários de Vassula Ryden:"A Igreja tem perdido a sua força e vigor e enquanto não se unir não terá força para evangelizar o mundo descristianizado" e Santo Agostinho, já afirmava que tamanha unidade que se observava nos primeiros cristãos, só se via na Trindade. Essa força atraía os pagãos e eles se convertiam aumentando assim o número dos cristãos.

AVVD é uma escola de espiritualidade Trinitária; entramos na união íntima com a Trindade e somos assim deificados. "Se permitires que o Meu Espírito Santo invada a tua alma, Ele pode transfigurá-la, de um deserto num jardim, onde Eu poderei repousar. Se permitires ao Meu Espírito Santo, Ele pode transfigurar sua alma num palácio, onde Eu poderei ser rei e reinar em ti; se Me permitires que o Meu Espírito Santo transfigure a tua alma, Ele pode transfigurá-la em um céu, onde Me poderás glorificar..." (AVVD) É a inabitação da Santíssima Trindade reconhecida e falada pelos místicos da Igreja de todos os tempos. Uma união íntima no mistério Trinitário, só poderá refletir uma união semelhante no Seu Corpo místico. A unidade operada pelo Espírito é o maior sinal para evangelizar o mundo!

Na AVVD, Jesus tem falado muito na promessa de um Novo Pentecostes, para a Igreja. Muitas vezes já me perguntei: Quando será? Já estamos sob a ação desse Novo Pentecostes? Já teve o seu início com o Advento do movimento querigmático e carismático? Não esqueçamos o que afirmou o Pe. Teófilo na sua pregação sobre o Espírito Santo na AVVD: "Só veremos a plenitude do Novo Pentecostes quando as Igrejas Cristãs estenderem as mãos umas para as outras, superarem o muro da divisão e caminharem unidas". A unidade é condição indispensável para que se manifeste o novo Pentecostes!

Fico pensando no "caminho" para a unidade e antes de mais nada, pensemos no que afirmou o Frei Raniero: "A coisa extraordinária a respeito do caminho à unidade é o amor e esse já está agora escancarado diante de nós. Não podemos "queimar etapas" em relação a doutrina, porque diferenças existem e serão resolvidas com paciência nas sedes apropriadas. Podemos ao contrário; queimar etapas no amor, e estar unidos a partir de agora. A Verdade, seguro sinal da vinda do Espírito Santo, não é, escreve Santo Agostinho, o falar em línguas , mas é o amor pela unidade 'Sabeis que tendes o Espírito Santo quando permitis que vosso coração adira a unidade através de uma sincera caridade'".

A página do Evangelho dessa liturgia de hoje, o Caminho de Emaús (Lc 24, 13-25) assiná-la um itinerário interior para o essencial: as mesmas características do Itinerário de Emaús se vêm na AVVD, pois "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre".

AVVD é um caminho, uma maravilhosa escola de amor à unidade, paulatinamente vamos assumindo essa causa. Quando comecei as leituras da AVVD, confesso que fui atraído pela mística extraordinária de um Deus apaixonado que ultrapassa o natural para nos escrever um "hino de amor" pelas mãos de uma mulher comum, tão comum que fora encontrada entre aqueles que não O amavam e O desprezavam. Mas, hoje é impossível para mim não me preocupar e não me comprometer com uma das causas mais importantes e urgentes: A unidade entre os cristãos. Parece-me que a consciência dos discípulos de Emaús, também, foi se alargando, à medida que faziam o caminho, até alcançar o essencial.

Fico pensando: Um "caminho" tem sempre o seu ponto de partida; para os discípulos de Emaús foi o escândalo da Cruz, o seu horror e a frustração do "seu nada" frente ao fracasso dos seus critérios de triunfo. Esse ponto de partida determinou também o seu jeito de caminhar: desanimados e decepcionados. O ponto de partida da AVVD é o tormento da Cruz de Cristo, que estende na Paixão do Seu Corpo místico, dilacerado e esquartejado pela nossa divisão.

Se não estou equivocado, essa foi a experiência decisiva para Vassula: A Cruz. Uma vez "seduzida" pelo Mestre e transformada, quis desistir e pediu isso mesmo ao Mestre, quando enfim, Ele lhe revelou a Crueza de Seu sofrimento, causado pela Paixão do Seu corpo místico. E por um amor pessoal ao Mestre, Vassula assumiu a Cruz da unidade, pela qual tem pago um alto preço.

"Em 1977, participei de um Congresso Ecumênico Carismático em Kansas City Missouri: Estavam lá quarenta mil presentes, metade católicos e metade de outras denominações cristãs.
Uma tarde, ao microfone, um dos animadores começou a falar de um modo, para mim, naquela época, estranho: "Vós sacerdotes e pastores, chorai e lamentai porque o Corpo de Meu Filho está em pedaços... Vós, leigos, homens e mulheres, chorai e lamentai porque o Corpo do Meu Filho está em pedaços"
. (Raniero Cantalamessa) O assombro do sofrimento do Cristo que se prolonga no Seu Corpo místico é que coloca os contemplativos da AVVD em marcha rumo à unidade.

Meus irmãos e irmãs, ainda que a nossa postura seja semelhante à dos desanimados discípulos, mesmo que se cravem em nossos corações as suas mesmas perguntas e sentimentos, não esqueçamos da presença do Santo Companheiro.

Jesus entrou inesperadamente na caminhada deles, se fez forasteiro, não foi reconhecido, explicou as escrituras, fez arder os seus corações, perguntou, exortou e se surpreendeu com a dureza de seus corações.

Sua pedagogia se repete na AVVD. Foi de um modo inesperado e intimista que Ele entrou no cotidiano de Vassula (e quer também repetir o mesmo em cada ser humano) bateu à sua porta, pediu permissão, se lá Ele era o forasteiro, aqui Ele é o peregrino de pés descalços em busca do mesmo: O coração vazio dessa pobre humanidade. Se lá o caminho era curto (Emaús ficava cerca de 12 Km de Jerusalém) aqui é longo e deserto, talvez o suficiente para fazer arder o nosso peito enquanto O escutamos e nos decidamos por Ele.

Os discípulos cegos pela sua própria visão não O reconheceram. Não devemos estranhar, se muitos dos Seus discípulos e Apóstolos, demasiadamente envolvidos em suas teologias, ainda não reconheceram Aquele que entrou em nosso Caminho!

"Ele lhes explicava as escrituras..." Vassula testemunha que quando o seu anjo Daniel lhe pediu para adquirir uma Bíblia, ela o fez, mas quando a abriu, seus olhos saltaram sobre os Salmos e não compreendeu absolutamente nada. Ela mesma afirma que o problema não era a língua, pois, conhecia bem aquela língua, o inglês. Sua ignorância era mais profunda, vinha da conseqüência do seu afastamento de Deus.

Na AVVD, Jesus percorre cada texto da Bíblia e explica como se explica a um catecúmeno, os mistérios da Vida em Deus, dos mais simples aos mais complexos. É o itinerário de iniciação à espiritualidade. Partindo do Livro de Daniel e Apocalipse de São João, Ele mostra a gravidade da "Abolição do sacrifício perpétuo"; a apostasia e rebelião, o Espírito do anti-Cristo, que antecedem o final dos tempos, são explicados a partir de I, II Tessalonicenses e Timóteo.

Mas o mais impressionante é alguém que fora afastado da Igreja, sem catequese e muito menos teologia, seja capaz de discutir, hoje, os assuntos mais sérios da nossa fé, de forma simples, direta, poética e eloqüente dando-nos, assim, o mais fino tratado de teologia Mística que jamais encontrei; capaz de fazer arder e impulsionar o coração mais frio e fazer chorar o teólogo mais empedernido. De onde vem essa sabedoria? Só pode vir, do Divino Companheiro, o mesmo do caminho de Emaús.

Oxalá exclamemos como Pedro exclamou em outra ocasião, não menos decisiva que a nossa: "a quem iremos Senhor, só tu tens palavras de vida eterna!"

A essa altura do caminho de Emaús, quase no ponto de chegada, o Mestre assume uma atitude curiosa "faz de conta que vai abandoná-los, até que confiantes no forasteiro misterioso clamam insistentemente: "Fica conosco porque a noite vem chegando".

Nessa altura do "nosso caminho", o Mestre tomou uma atitude estranha: calou-se. Será que abandonou a humanidade à sua própria dureza? Talvez não seja essa a pergunta correta e nem a esse destinatário que se deva fazê-la. Mas a pergunta deverá ser: Será que nós, depois de tantos anos de caminhada com Ele (22 anos), podemos clamá-Lo como os primeiros discípulos? "Fica conosco Senhor..." se esse clamor não ecoa da boca dos Seus ministros, ao menos não deveria nos faltar, assim como, a certeza de que a "noite" de nossa humanidade já chegou.

Fico pensando: qual foi o conteúdo do caminho de Emaús? Não sabemos explicitamente, pois, o evangelista não o deixou. Mas, não podemos negar que, na AVVD, Ele explicitou, de maneira claríssima, sem segredos, o conteúdo dessa caminhada: interveio de modo simples, pediu licença para uma conversa de coração a coração e explicitou assuntos sérios: a beleza da vida espiritual (Verdadeira Vida em Deus); o futuro da Sua Igreja, o futuro da humanidade e o Seu plano de amor e paz.

Enquanto não chegamos ao ponto desejado: a unidade em torno do mesmo altar onde Ele se dá plenamente a conhecer, se revela em plenitude e irradia Sua presença para os demais discípulos e o mundo; pede de nós essas atitudes: humildade e arrependimento que se concretizam em oração e amor pela unidade, o que nos levará à plena Comunhão.

Para concluir: gostaria de citar alguns detalhes importantes: antes da ceia, Ele pediu aos Seus discípulos que preparasse o lugar para o banquete. E eles o fizeram...

"No segundo ano do Rei Dario, no primeiro dia do sexto mês, esta palavra do Senhor foi revelada por meio do profeta Ageu a Zorobabel filho de Salatiel, Governador da Judéia e a Josué filho de Josedec, Sumo Sacerdote..."
Parece-vos este o tempo de habitar tranqüilos em vossas casas bem cobertos enquanto minha casa é ainda uma tenda?
(Ag 1,1-4)

Coisa semelhante o Senhor pediu a Francisco de Assis, nos sombrios tempos da Idade Média: "Reconstrói a Minha Igreja". E Francisco começou a grande renovação espiritual daquele século.

A Verdadeira Vida em Deus começou com um convite assim a Vassula (o qual se estende a mim e a você): "Qual casa é mais importante a sua ou a Minha"? E diante da resposta de Vassula: "A Sua Senhor!", Ele disse: "Embeleze a minha casa, reconstrói a minha casa, une a minha casa". Vassula escutou o Seu apelo e tem dado a sua vida por essa causa.

"O povo de Deus escutou o apelo do profeta: cessou de ornamentar cada um a própria casa para reconstruírem juntos o templo de Deus. Deus enviou de novo o Seu profeta com uma mensagem de consolação e encorajamento: 'Agora coragem - Zorababel - oráculo do Senhor - Coragem, Josué, filho de Josedec, sumo sacerdote: Coragem povo todo do país, diz o Senhor, e ao trabalho porque eu estou convosco". (Ag 2,4) Coragem, vós todos que tendes no coração a causa da unidade dos cristãos, e ao trabalho, porque eu estou convosco, diz o Senhor." (Raniero Cantalamessa). Coragem, contemplativos da AVVD, caminhemos, pois o Senhor está também conosco!

 

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"A Túnica Era Sem Costura"

Homilia do Frei Raniero Cantalamessa dirigida a Casa Pontifícia na Sexta-feira Santa, na Celebração da Paixão do Senhor na Basílica vaticana, em 21 de março de 2008.

 

(Nota do Editor: Ao lermos esta homilia nos sentimos muito felizes por observar sua semelhança com o conteúdo das mensagens de A Verdadeira Vida em Deus sobre a Unidade dos Cristãos e nos decidimos a publicá-la neste boletim, pelo fato do artigo anterior diversas vezes mencioná-la e assim concluímos que será muito edificante para todos nós.)

 

"Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de quem será. Assim se cumpria a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sorte sobre a minha túnica (Sl 21,19). Isso fizeram os soldados" (Jo 19, 23-24).

Aqui sempre se questiona o que o evangelista João queria dizer com a importância que dá a esse detalhe da Paixão. Uma explicação, relativamente recente, é que a túnica recorda o paramento do sumo sacerdote, e que João, então, queria afirmar que Jesus morreu não apenas como rei, mas também como sacerdote.

Da túnica do sumo sacerdote não se diz, na Bíblia, que deveria ser sem costura (Cf. Ex 28,4; Lev 16,4). Por isso, importantes exegetas preferem se ater à explicação tradicional, segundo a qual a túnica intacta simboliza a unidade dos discípulos [1]. Esta é a interpretação que São Cipriano já dava: "O mistério da unidade da Igreja, escreve, é expresso no Evangelho quando se diz que a túnica de Cristo não foi dividida nem rasgada" [2].

Qualquer que seja a explicação que se dá ao texto, uma coisa é certa: a unidade dos discípulos é, para João, o propósito pelo qual Cristo morre: "Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos" (Jo 11, 51-52). Na última ceia, ele próprio disse: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17, 20-21).

A feliz notícia a proclamar na Sexta-Feira Santa é que a unidade, antes que um objetivo a atingir, é um dom recebido. Que a túnica fosse tecida "de alto a baixo", explica São Cipriano, significa que "a unidade trazida por Cristo provém do alto, do Pai celeste, e não pode, então, ser rasgada por quem a recebe, mas deve ser acolhida integralmente".

Os soldados fizeram em quatro partes "as vestes", ou "o manto" (ta imatia), isto é, a indumentária exterior de Jesus, não a túnica, o chiton, que era o indumento íntimo, usado em contato direto com o corpo. Um símbolo também isso. Nós, homens, podemos dividir a Igreja no seu elemento humano e visível, mas não a sua unidade profunda que se identifica com o Espírito Santo. A túnica de Cristo não foi e não poderá ser dividida. "Pode-se, acaso, dividir Cristo?", dizia Paulo (cf. 1 Cor 1,13). É a fé que professamos no Credo: "Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica".

Mas se a unidade deve servir de sinal "para que o mundo creia", essa deve ser uma unidade também visível, comunitária. É esta unidade que foi perdida e que devemos recuperar. Ela é bem mais que relações de boa vizinhança, é a própria unidade mística interior - "sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos" (Ef 4,4-6) -, o quanto esta unidade objetiva é acolhida, visualizada e manifestada, de fato, pelos crentes.

"Senhor, é este o tempo em que ides instaurar o reino de Israel?", questionam os apóstolos a Jesus depois da Páscoa. Hoje voltamos a fazer esta pergunta a Jesus: É este o tempo em que se instaurará a unidade visível da tua Igreja? A resposta também é a mesma de então: "Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas" (At 1, 6-8).

Recordava-o o Santo Padre na homilia de 25 de janeiro passado, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, na conclusão da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: "A unidade com Deus e com os nossos irmãos e irmãs é um dom que provém do Alto, que brota da comunhão do amor entre Pai, Filho e Espírito Santo e que nela se aumenta e se aperfeiçoa. Não está em nosso poder decidir quando ou como esta unidade se realizará plenamente. Só Deus o poderá fazer! Como São Paulo, também nós colocamos a nossa esperança e confiança "na graça de Deus que está conosco" ".

Também hoje virá o Espírito Santo, se nos deixarmos guiar, para conduzir à unidade. Como fez o Espírito Santo para realizar a primeira fundamental unidade da Igreja: aquela entre judeus e pagãos? Vem sobre Cornélio e a sua casa do mesmo modo com que em Pentecostes veio aos apóstolos. Pedro tira a conclusão: "Pois, se Deus lhes deu a mesma graça que a nós, que cremos no Senhor Jesus Cristo, com que direito me oporia eu a Deus?" (At 11,17).

Ora, de um século para cá, nós observamos repetir-se sob nossos olhos este mesmo prodígio, em escala mundial. Deus infundiu seu Espírito Santo, de modo novo e raro, sobre milhões de fiéis, aparentemente em quase todas as denominações cristãs e, a fim de que não houvesse dúvidas sobre suas intenções, o infundiu com as mesmas idênticas manifestações. Não é este um sinal de que o Espírito que impele a reconhecer o episódio como discípulos de Cristo e a tendermos juntos para a unidade?

Apenas esta unidade espiritual e carismática, é verdade, não basta. Observamos já ao início da Igreja. A unidade entre judeus e gentios é nova e já ameaçada pelo cisma. Ali houve uma "longa discussão", no chamado concílio de Jerusalém, e, ao final, houve um acordo, anunciando para a Igreja com uma fórmula: "pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" (At 15,28). O Espírito Santo opera, então, também através de uma via diferente, que é o confronto paciente, o diálogo e o compromisso entre as partes, quando não está em jogo o essencial da fé. Opera através das "estruturas" humanas e dos "ministérios" estabelecidos por Jesus, sobretudo o ministério apostólico e petrino. É o que chamamos hoje de ecumenismo doutrinal e institucional.

A experiência nos está convencendo porém que também este ecumenismo doutrinal, ou de vértice, não é suficiente e não avança, se não for acompanhado por um ecumenismo espiritual, de base. Isto é repetido sempre com maior insistência justamente pelos máximos promotores do ecumenismo institucional. Aos pés da cruz, queremos meditar sobre este ecumenismo espiritual: em que consiste e como podemos avançar nisto.

O ecumenismo espiritual nasce do arrependimento e do perdão e se alimenta com a oração. Em 1977, participei de um congresso ecumênico carismático em Kansas City, Missouri. Estavam lá quarenta mil presentes, metade católicos (entre os quais o cardeal Suenens) e metade de outras denominações cristãs. Uma tarde, ao microfone, um dos animadores começou a falar de um modo, para mim, naquela época, estranho: "Vós, sacerdotes e pastores, chorai e lamentai, porque o corpo de meu Filho está em pedaços… Vós, leigos, homens e mulheres, chorai e lamentai porque o corpo de meu Filho está em pedaços".

Comecei a ver as pessoas caírem uma após outra de joelhos em torno a mim e muitos desses soluçavam de arrependimento pelas divisões no corpo de Cristo. E tudo isso enquanto uma frase estava escrita de um lado a outro do estádio: "Jesus is Lord, Jesus é o Senhor". Eu era como um observador ainda assaz crítico e destacado, mas lembro que pensei comigo: Se um dia todos os crentes estivessem reunidos a formar uma só Igreja, seria assim: enquanto estivermos todos de joelhos, com o coração contrito e humilhado, sob o grande senhorio de Cristo.

Se a unidade dos discípulos deve ser reflexo da unidade entre o Pai e o Filho, essa deve ser, antes de tudo, uma unidade de amor, porque tal é a unidade que reina na Trindade. A Escritura nos exorta a "fazer a verdade na caridade" (veritatem facientes in caritate) (Ef 4,15). E Santo Agostinho afirma que "não se entra na verdade senão através da caridade": non intratur in veritatem nisi per caritatem [3].

A coisa extraordinária a respeito desse caminho à unidade baseado no amor é que esse já está agora escancarado diante de nós. Não podemos "queimar etapas" em relação à doutrina, porque as diferenças existem e serão resolvidas com paciência nas sedes apropriadas. Podemos, ao contrário, queimar etapas na caridade, e estar unidos, a partir de agora. A verdade, seguro sinal da vinda do Espírito, é, escreve Santo Agostinho, o falar em línguas, mas é o amor pela unidade: "Sabeis que tendes o Espírito Santo quando permitis que vosso coração adira à unidade através de uma sincera caridade" [4].

Repensemos no hino da caridade de São Paulo. Cada frase sua adquire um significado atual e novo, se aplicada ao amor entre membros das diversas Igrejas cristãs, nas relações ecumênicas:

"A caridade é paciente…
A caridade não é invejosa…
Não busca só seu interesse…
Não leva em conta o mal recebido (no caso do mal feito aos outros!)
Não se alegra com a injustiça, mas se compraz da verdade (não se alegra das dificuldades das outras Igrejas, mas se compraz de seus sucessos)
Tudo crê, tudo espera, tudo suporta"
(1 Cor 13,4 ss.).

Esta semana acompanhamos à sua morada eterna uma mulher - Chiara Lubich - fundadora do Movimento dos Focolares - que foi uma pioneira e um modelo deste ecumenismo espiritual de amor. Ela demonstrou que a busca da unidade entre os cristãos não leva ao fechamento para o resto do mundo; é, ao contrário, o primeiro passo e a condição para um diálogo mais vasto com os crentes de outras religiões e com todos os homens que têm no coração os destinos da humanidade e da paz.

"Amar-se, já foi dito, não significa olhar um para o outro, mas olharem juntos na mesma direção". Também entre cristãos, amar-se significa olharem juntos na mesma direção que é Cristo. "Ele é nossa paz" (Ef 2,14). Na medida na qual andemos juntos para Cristo, nos aproximaremos também entre nós, até ser verdadeiramente, como ele pediu, "uma só coisa com Ele e com o Pai". Acontece como para os raios de uma roda. Vejamos o que acontece aos raios quando do centro vão para o exterior: à medida que se distanciam do centro se distanciam também entre si, até terminar em pontos distantes da circunferência. Vejamos, ao contrário, o que acontece quando da circunferência movem-se até o centro: pouco a pouco se aproximam do centro, se aproximam entre si, até formar um ponto só.

O que poderá reunir os cristãos divididos será só a difusão entre eles de uma onda nova de amor por Cristo. É isto que está acontecendo por obra do Espírito Santo e que nos enche de estupor e de esperança. "O amor de Cristo nos constrange, ao pensamento que um morreu por todos" (2 Cor 5,14). O irmão de outra Igreja - também cada ser humano - é "alguém pelo qual Cristo morreu" (Rom 14, 16), como morreu por mim.

Um motivo deve, sobretudo, impulsionar-nos adiante neste caminho. O que estava em jogo no início do terceiro milênio não é o mesmo que estava no início do segundo milênio, quando se produziu a separação entre oriente e ocidente, e nem mesmo é a mesma coisa que na metade do mesmo milênio, quando se produz a separação entre católicos e protestantes. Podemos dizer que a maneira exata de proceder do Espírito Santo do Pai e o problema da relação entre fé e obras são os problemas que apaixonam os homens de hoje e com o qual permanece ou cai a fé cristã?

O mundo caminhou adiante e nós permanecemos presos a problemas e fórmulas que o mundo não conhece mais nem o significado. Discutamos ainda sobre como ocorre a justificação do pecador, em uma forma que perdeu o próprio sentido do pecado e o vê, cito, como "uma nefasta invenção judaica que o cristianismo propagou ao povo".

Nas batalhas medievais havia um momento no qual, superadas as infantarias, os arqueiros, a cavalaria e todo o resto, a multidão se concentrava em torno do rei. Ali se decidia o êxito final da batalha. Também para nós a batalha hoje está em torno do rei. Existem edifícios ou estruturas metálicas assim feitas que se se toca um certo ponto nevrálgico, ou se se tira uma certa pedra, tudo desaba. No edifício da fé cristã esta pedra angular é a divindade de Cristo. Removida esta, tudo se evapora e, antes de qualquer coisa, a fé da Trindade.

Daí se vê como existem hoje dois ecumenismos possíveis: um ecumenismo da fé e um ecumenismo da incredulidade; um que reúne todos aqueles que crêem que Jesus é o Filho de Deus, que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, e que Cristo morreu para salvar a todos os homens, e um outro que reúne todos aqueles que, em descaso ao símbolo de Nicéia, continuam a proclamar esta fórmula, mas esvaziando-a de seu verdadeiro conteúdo. Um ecumenismo no qual, no limite, todos crêem nas mesmas coisas, porque ninguém crê mais em nada, no sentido que a palavra "crer" tem no Novo Testamento. Foi esta versão "liberal" que tornou no passado e continua a tornar a própria palavra "ecumenismo" suspeita por vários setores do cristianismo.

"Quem é que vence o mundo, escreve João na Primeira Carta, se não quem crê que Jesus é o Filho de Deus?" (I Jo 5,5). Permanecendo neste critério, a fundamental distinção entre os cristãos não é entre católicos, ortodoxos e protestantes, mas entre aqueles que crêem que Cristo é o Filho de Deus e aqueles que não crêem.

"No segundo ano do rei Dario, no primeiro dia do sexto mês, esta palavra do Senhor foi revelada por meio do profeta Ageu a Zorobabel, filho de Salatiel, governador da Judéia, e a Josué, filho de Josedec, sumo sacerdote…: Parece-vos este o tempo de habitar tranqüilos em vossas casas bem cobertas, enquanto minha casa é ainda uma tenda?" (Ag 1, 1-4).

Esta palavra do profeta Ageu é voltada hoje a nós. É este o tempo de continuar a preocupar-nos só do que diz respeito a nossa ordem religiosa, nosso movimento, ou nossa Igreja? Não será justamente esta a razão pela qual também nós "semeamos muito, mas colhemos pouco" (Ag 1, 6)? Pregamos e agimos de todos os modos, mas convertemos poucas pessoas e o mundo se distancia, ao invés de aproximar-se de Cristo.

O povo de Israel escutou o apelo do profeta; cessou de ornamentar cada um a própria casa para juntos reconstruírem o templo de Deus. Deus então enviou de novo seu profeta com uma mensagem de consolação e de encorajamento: "Agora, coragem, Zorobabel - oráculo do Senhor - coragem, Josué, filho de Josedec, sumo sacerdote; coragem, povo todo do país, diz o Senhor, e ao trabalho, porque eu estou convosco" (Ag 2,4). Coragem, vós todos que tendes no coração a causa da unidade dos cristãos, e ao trabalho, porque eu estou convosco, diz o Senhor!


[1] Cf. R. E. Brown, The Death of the Messiah, vol. 2, Doubleday, New York 1994, pp. 955-958.
[2] S. Cipriano, De unitate Ecclesiae, 7 (CSEL 3, p. 215).
[3] S. Agostino, Contra Faustum, 32,18 (CCL 321, p. 779).
[4] S. Agostino, Discorsi 269,3-4 (PL38, 1236 s.).

 

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