A
audiência-geral de João Paulo II, na quarta-feira, falou de seu predecessor,
Albino Luciani (1912-1978).
No
final da tarde de 28 de agosto de 1978, sábado, meu venerado predecessor foi
eleito. Ontem foi o vigésimo quinto aniversário desse evento.
Hoje
evoco aqueles momentos que tive o júbilo de vivenciar com profunda emoção.
Relembro como suas palavras tocaram profundamente os corações das pessoas
que enchiam a Praça de São Pedro. Desde o momento da sua primeira aparição
no balcão central da Basílica do Vaticano, uma corrente de simpatia espontânea
surgiu entre os presentes. Sua face sorridente, seu olhar confiante e aberto
conquistaram os corações dos romanos e dos fiéis do mundo inteiro.
Vinha
da ilustre comunidade eclesial de Veneza, que já tinha dado à Igreja, no século
XX, dois grandes pontífices: São Pio X, cujo centenário de eleição como
papa comemoramos precisamente neste ano, e o bem-aventurado Papa João XXIII,
de cuja morte celebramos em junho o quadragésimo aniversário.
“Abandonemo-nos
com confiança à ajuda do Senhor”, disse o novo papa em sua primeira
mensagem de rádio. Ele foi, sobretudo, um mestre da fé límpida, sem
render-se a modismos passageiros ou mundanos. Ele tratou de adaptar seus
ensinamentos à sensibilidade do povo, mas sempre preservando a clareza da
doutrina e a consistência da sua aplicação à vida.
Mas
qual era o segredo de seu fascínio, a não ser um ininterrupto contato com o
Senhor?
“Você
sabe. Eu tento manter uma conversa contínua com Você”, ele anotou num de
seus escritos, na forma de uma carta a Jesus. “O importante é que Cristo
seja imitado e amado”: aqui está a verdade que, se traduzida numa experiência
viva, faz “o cristianismo e a
alegria caminharem bem juntos”.
No
dia seguinte ao de sua eleição, no Ângelus
de domingo, 29 de agosto, após ter relembrado seus predecessores, o novo papa
falou: “Eu não tenho nem a sapientia
cordis, (sabedoria do coração) do Papa João, nem o preparo e o
conhecimento do Papa Paulo, mas estou no lugar deles. Eu devo tentar servir à
Igreja.”
Ele
estava muito unido aos dois papas que o precederam. Fazia-se pequeno perante
eles, manifestando a humildade que, para ele, sempre foi a primeira regra da
vida. Humildade e otimismo foram as características de sua existência.
Precisamente por esses dons, na sua breve passagem entre nós, ele deixou para
a Igreja uma mensagem de esperança que encontrou aceitação em muitos
corações. “Ser otimistas apesar de tudo”, gostava de repetir. “A
confiança em Deus deve ser o pivô de nossos pensamentos e ações”. E
observava com realismo, animado pela fé: “as principais pessoas nas nossas
vidas são duas: Deus e cada um de nós”.
Sua
palavra e sua pessoa penetraram no espírito de todos e, por causa disso, a
notícia de sua morte inesperada, que ocorreu na noite de 28 de setembro de
1979, foi avassaladora. Desaparecia o sorriso de um pastor que estava tão
perto do povo e que, com serenidade e equilíbrio, conseguiu entrar em
diálogo com a cultura do mundo.
As
poucas palestras e os escritos que nos deixou como papa somam-se à considerável
coleção de seus textos, os quais, 25 anos após sua morte, são
de surpreendente importância na atualidade. Ele disse uma vez:
“O progresso entre homens que se amam uns aos outros, considerando-se irmãos
e filhos do único Deus e Pai, pode ser uma coisa maravilhosa. Progresso com
homens que não reconhecem em Deus o único Pai torna-se um perigo
constante.” Quanta verdade há nessas suas palavras, também úteis para os
homens de nosso tempo!
Possa
a humanidade aceitar tão sábio conselho e extinguir os numerosos focos de ódio
e violência presentes em tantas partes da Terra, para construir, na concórdia,
um mundo mais justo e solidário.
Através
da intercessão de Maria, de quem João Paulo I sempre se professou afetuoso e
devoto filho, rezemos ao Senhor para que Ele receba, no seu reino de paz e júbilo,
esse seu devoto servo. Rezemos também para que seu ensinamento, que diz
respeito concretamente às nossas situações diárias, seja uma luz para os
crentes e para toda pessoa de boa vontade.
(traduzido por Fernando de La Riva - AVVD do Rio de Janeiro - RJ - Brasil)
(revisado por Larissa de Freitas Faria – AVVD de Belo Horizonte – MG –
Brasil)